31 de out. de 2018

Sobre Candelárias e Roraimas *

Publicado 25 anos atras.






“Ou então cada paisano e cada capataz
por sua burrice fará jorrar sangue demais
nos pantanais, nas cidades, caatingas
e nos Gerais?”

Caetano Veloso (Podres Poderes)




                Capatazes e paisanos, campo e cidade, personagens de John Wayne e Charles Bronson marcaram encontro no coração do Brasil, algum ponto entre a Igreja da Candelária e a fronteira com a Venezuela. O cowboy, eternizado nas telas como intrépido matador de índios, troca um aperto de mão com o justiceiro de rua da (infindável) série “Desejo de Matar”. Os personagens cumprem sua missão: eliminar a incômoda presença de Yanomâmis e “meninos de rua”; os primeiros representam o anacronismo e o entrave de uma Gloriosa Marcha para o Norte, enquanto os últimos impregnam as ruas manchando um ideal de assepsia urbana.

          As vítimas das duas chacinas compartilham a característica de se constituírem em alteridades insuportáveis de uma sociedade que mal consegue disfarçar, sob o manto de uma consternação simulada, seu ódio por tudo que não seja sua própria imagem. O ódio ao outro, em todas as suas variantes discriminatórias, encontra-se atuante em nossa cultura e fornece terreno fértil para uma cumplicidade velada.

          Entretanto, se o horror às diferenças é generalizado na sociedade, os interesses subjacentes às iniciativas assassinas restringem-se a classes e setores claros e definidos, e estes últimos contam a seu favor com mecanismos sutis e eficazes para esterilizar qualquer iniciativa radical que reivindique transformações estruturais no lugar de paliativas apurações de fatos.

          Um desses mecanismos serve-se mesmo da própria ideia de denúncia dos fatos. Nos jornais televisivos a indignação encontra sua canalização e seu aplacamento; apresentadores emocionados transformam a literalidade cruel em virtualidade espetacular e a realidade trágica converte-se em simulacro, oferecendo ao telespectador a oportunidade de viver sua cota de consternação pasteurizada. O telejornal proporciona a ilusão de participação ao mesmo tempo que exorciza os elementos de concretude, uma operação higiênica de re-semantização que Jean Baudrillard expressou de modo brilhante: “Vivemos desta maneira ao abrigo dos signos e na recusa do real”.

          Além disso, o destino das tragédias é transformar-se em mais um fait-divers no interior de um fluxo intenso e extenso: “autoridades” dão início às “apurações de fatos” e o desenrolar dos acontecimentos confunde-se, em questão de dias ou semanas, com a trama da novela das oito, até que todas as histórias pereçam por sua volatilidade.

          É evidente que estamos frente a mecanismos inerentes à estrutura das comunicações de massa, não se tratando portanto de nenhuma estratégia intencional de acobertamento de interesses. Não há dúvida porém que existem aqueles que se beneficiam dessa perversão dos signos.

          No capítulo da realidade, Yanomâmis, “meninos de rua”, presos da Casa de Detenção, assim como lideranças sindicais do campo frequentemente vítimas de atentados, todos nos revelam incessantemente o caráter contraditório de nosso momento histórico. Não estamos frente a manifestações patológicas de uma sociedade doente, tão pouco estamos em descompasso com algum ideal de modernidade: os chamados “incidentes” são, na verdade, desdobramentos visíveis de uma estrutura, e pouco ou nada possuem de incidental, como fazem pensar até mesmo alguns indignados de boa fé. Chacinas, genocídios e assassinatos não são corpos estranhos à nossa modernidade: são traços de sua realização em nosso capitalismo periférico.

          Voltando à indignação, não me consta que John Wayne ou Charles Bronson tenham sido reprovados por suas plateias; ao contrário, temáticas como a da expansão para o West – mesmo às custas de nações indígenas inteiras -, ou como a da chacina justiceira das ruas – via de regra executando bandidos negros ou hispânicos – encontram elementos de empatia permanente no grande público. Nos dois temas recorre o Desejo de Matar o Outro. A diferença, seja ela regional, étnica ou de classe, parece constituir-se em algo insuportável.

         Elementos de um imaginário coletivo encontram-se, deste modo, indissociados de uma estrutura econômica. Ambos complementam-se de modo constitutivo formando um quadro refratário, mas não inacessível, aos esforços de interpretação crítica. Nesse quadro figuram novas e reformuladas modalidades de um processo que não se alterou em seu âmago: o capitalismo e suas tramas ideológicas, desejem ou não os apologistas do neoliberalismo.

* Publicado no Jornal da Cidade de Rio Claro (SP), Terça-feira, 31 de Agosto de 1993.

14 de out. de 2018

SÃO OSCAR ROMERO, ROGAI POR NÓS.



A canonização do bispo salvadorenho Dom Romero me emocionou, pois lembro que chorei seu assassinato em 1980. Naquele ano eu já havia deixado a prática católica, mas admirava aquela figura corajosa, assim como admirava Ernesto Cardenal e Leonardo Boff pela radicalidade de suas posições na luta por justiça e igualdade. 

A emoção com certeza é fruto também de marcas do cristianismo que ficaram em mim, pois somos feitos pela nossa história, as palavras de nossas biografias não se apagam por completo. Nunca.

Meu primário foi em colégio salesiano, mas desde muito cedo, criança mesmo, minha formação religiosa se deu no convívio com padres estigmatinos (da Congregação dos Sagrados Estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo), na Igreja de São Benedito em Campinas, SP. Aos 13 anos ingressei na Comunidade de Jovens, fiz cursinho T.L.C (Treinamento de Liderança Cristã), aprendi a cultivar a espiritualidade.

Alguns de nós chegamos também a flertar com o nascente movimento da Renovação Carismática que foi levada a Campinas por jesuítas como Haroldo Rahn e Eduardo Dougherty (que aportuguesaram seus primeiros nomes). Hoje entendo o sentido daquele movimento como reação à Teologia da Libertação, mas ficou algo dele também como marca, penso que certo sentido do ato de “orar”.

Houve uma época, lembro-me bem, que nós, jovens, assistimos ao filme “Irmão Sol, irmã Lua”, história de Francisco de Assis, e fomos arrebatados pela visão de mundo e pela mística franciscana.  De todas as marcas, esta foi a que ficou mais impregnada em mim. Lembro-me que seis anos após meu afastamento do catolicismo conheci a obra de Leonardo Boff e cheguei a me envolver tanto em sua leitura que escrevi uma carta a ele. A resposta, ainda em tempos de correspondência manuscrita, me chegou. Infelizmente perdeu-se com outros papéis. O tema? O assunto? Vocação!

Como tive muitas “vocações”, muitos chamados, aquele fervor franciscano não se transformou em opção de vida e outras formas de espiritualidade tomaram seu lugar, mas ah...sim, deixou marcas.

Em tempos difíceis para o Brasil, com a ameaça às liberdades, com o ódio sendo esbravejado e materializado em assassinatos e agressões, eu, enfrentando certo abatimento, permito que as marcas de Francisco de Assis aflorem, revivam em meu espírito. Inclino-me em prece ao novo santo e peço a ele que interceda por nós.

Contradição? E quem não traz em sua biografia marcas contraditórias e ambíguas?

Pax et bonum!

17 de mar. de 2018

A IMAGINAÇÃO FASCISTÓIDE: “SABE DE UMA COISA FOI O PSOL MESMO QUE MATOU [...]”.




A escrita hoje sai sem refinamentos, não sei onde busca-los: estou oco.

Um tanto zonzo também, desnorteado. Dormi mal, acordei no meio da madrugada extremamente incomodado e me perguntando o quê, efetivamente, está me deixando assim.

Tenho instrumentos teóricos e metodológicos para pensar e interpretar discursos desse tipo, mas nesse momento fugiram-me todos, escaparam, ficou apenas essa zonzeira atordoada, mais atordoada ainda quando vejo o sorriso de Marielle.

Conto a história:

Comovido com o assassinato de Marielle Franco resolvi fazer uma visita à página do PSOL no Facebook e deixar uma mensagem. Ato simples, mas senti o desejo de expressar minha solidariedade, mesmo que singela.
Passou algum tempo, notificação de comentários. 

Fui checar e qual não foi minha surpresa quando vi a “pérola” que reproduzo abaixo:




Claro que não criei debate, deixei apenas um irônico “Te conheço?” e segui a vida, mas uma inquietação me fez retornar e visitar o perfil da pessoa.


Uma mulher negra, como Marielle, SQN: Postagens de ódio ao Islamismo, com concepções confusas acerca de regimes de governo (confundindo socialismo com comunismo) e, pior, um post sobre assédio que ultrapassa o limite da razão:




Em relação a Marielle e ao PSOL (lembrando que não sou filiado nem pretendo), uma postagem em particular me irritou profundamente:



Essa pessoa é mais uma, uma entre milhares ou milhões de brasileiros e brasileiras cujas ideias me fazem pensar: é burrice, inocência, ingenuidade, canalhice, é o que, afinal?

Ah, sim, lembrei! 

A eficácia da dominação reside, entre outros fatores, na interiorização das ideias dominantes (já li isso em algum lugar). Acrescentaria outra dimensão, a da alucinação. 

A lógica tortuosa do discurso - que não é, infelizmente, apenas dessa moça -, é um sintoma, produto de um delírio alucinatório específico que não pode ser aplacado com psicofármacos. E se pudesse, haveria falta de remédio no mercado: são milhares berrando asneiras, expelindo ódio.

É isto para hoje, não consigo mais que isso. Fico com o sorriso corajoso de Marielle e no sorriso dela vejo o sorriso das milhares de vítimas da violência política, dos genocídios, etnocídios e "sociocídios", com licença para o neologismo.

Um final de semana triste.


RJdS, 17/03/2018



10 de mar. de 2018

E ESSE NEGÓCIO DE MUSICA/BLUES, BRINCO, ANEL, POESIA E...E SOCIALISMO?!

Village, NYC, 1995 ou 96
















Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

(Cazuza, Blues da Piedade)



Notas para uma autobio em alta velocidade



Não, não é algo novo, nada novo. Tô só reincorporando em minha vida algumas “coisas” que por algum motivo foram sendo abandonadas por desautorizações alheias ao meu Desejo. Reencontro-me, reconcilio-me, já falei de reconciliações.

Tem nada de novo não.

Música? Nunca foi passatempo. “Musical” em minha vida nunca foi “fundo”. 

O Blues em particular? Amor antigo desde que os teclados de Billy Preston rasgaram meu coração naquele solo em I got the blues que tá no incrível álbum Sticky fingers, Stones (1972). 



Rolling Stones Records/Atlantic Records. Capa por Andy Warhol




Depois veio Janis, conforme a memória trabalha, e quase ao mesmo tempo as interpretações pesadas feitas pelo Led Zeppelin (I can’t quit you baby et all).

Um dia me caiu nas mãos, nos ouvidos e no coração o “Nothing but the blues”, do Johnny Winter (1977): era um tributo ao blues e a Muddy Waters, que inclusive participa do álbum. Lembro que li algo na contracapa que me fez entender TUDO! 



Selo Blue Sky ‎– PZ 34813




Dali em diante foi Blues, mas também vivo de rock, samba, baladas folk, Irish Music, erudita, bossa nova, a tal MPB e, claro, de jazz (que tá ali bem perto do blues). Não, não sou nacionalista: minha pátria é o mundo.

Já estudei um pouco de tudo, foi pouco, mas foi formando um pequeno tudo: violão, piano, bateria. Agora não quero mais o pouco. Tá tarde? Nunca é, nunca é.  E tente dormir com meu barulho, porque logo que as mãos desenferrujarem vou comprar uma guitarra. 

Brinco? Fui um dos primeiros moços (é, eu era moço) a furar a orelha em minha cidade, acho que em 1980. Furei de novo em 2010, de novo me encolhi, agora veio e vai ficar. Anel é novidade, gostei. E já aviso que o cabelo vai crescer um pouco, talvez muito, vou ver depois conto.

Agora vamos à poesia que alguns dizem não ser e fazem aquele ar sarcástico de parnasianos provincianos: tem quem goste e muito: poema, micropoema, poema-em-prosa, livre associação com aliterações, letras de música sim, também, para des/gosto dos ressentidos. Expressão poética também não é novidade.





Sobre Socialismo, ora me poupem, se me mandarem morar na Venezuela ou em Cuba posso até pensar na possibilidade, mas não é a questão. A questão? Simples assim: contra a propriedade privada dos grandes meios de produção, contra a apropriação do trabalho excedente. Não “deu certo” onde aconteceu? O que é, afinal, “dar certo”? Algo deu certo nos EUA ou aqui? Saramago disse uma vez algo assim: que ele não abriria mão de seu posicionamento, pois seria oportunismo.  Os jornalistas (na época “yuppies” de um grande jornal paulista), ficaram com cara de tacho.

Utopia? Sim! Utopia necessária e urgente.

Enfim, digo sim ao brinco, ao blues, ao socialismo, à poesia e a tudo mais que me fez quem (e o quê) sou. E aguardem porque vem mais. Para quem não entendeu, peço Piedade.

E viva Zeca Baleiro, Billie Holliday, Janis, Jards Macalé, Paulo Leminski, Cazuza, Cássia Eller e todos e todas sem juízo do mundo!


RJdS/Março/2018

31 de jan. de 2018

"DEAD FLOWERS" (OU: PRA NÃO DIZER QUE EU TAMBÉM NÃO FALEI DE FLORES)



vai findando,
perdido adolescente,
um janeiro de paixão louca

                               e imprudente.







I.

Impreciso horário de verão, final de tarde, talvez início da noite.

Esquina, sinal fechado no meu peito no cruzamento.

O vendedor de rosas oferecia vermelhas e amarelas.

Lembrei: Oyá, senhora dos ventos, ou Oxum, águas doces, sedutora? Ardilosa também, dizem alguns. Caetano fala que “teve o negócio de você perguntar o meu signo”, mas nós numa noite especulamos Orixás, eu com a quase certeza de Oyá, você me dizendo já se saber d’Oxum.

Cena estranha aquela, recordar o diálogo sobre divindades iorubas escutando Have a cigar do Pink Floyd no carro. Pink, rosa. Cor-de-rosa vermelha ou amarela.

Nas mãos do vendedor havia também maços de cores imprecisas como o horário de verão: dia ou noite? Era um entre-tempo, transição, era um “quando o silêncio saia de seus guardados”, como disse uma vez Riobaldo sobre o lusco-fusco do amanhecer, no Grande Sertão do Rosa. Ou era o contrário? Faz diferença? O Rosa, a rosa, o vendedor entre os carros. Algumas até já meio murchas, resto de rosa, sobra: falta, aquilo que resta.

“As rosas não falam”.

Sinal fechado signo estancado num lapso denso, finalmente ficaram para trás o vendedor e suas rosas que logo poderiam ser as dead flowers da canção dos Stones. Tomei o rumo da noite.



II.

Contei que tomei o rumo da noite?

Noite insuportável, túnel de estrada que não termina, chamei Janis porque ela gritava escancaradamente e às vezes usava coroas de flores nos cabelos.

Apropriei-me de seus gritos como se saíssem de minhas entranhas: “cry baby!”

Take another little piece of my heart!”: fatia, eu fatiado dirigindo pelas ruas pouco movimentadas. Sabe, verão, férias, fim de semana. Segui me despetalando como iria acontecer fatalmente às flores do vendedor, aquele do cruzamento, encruzilhada, crossroad.

Este é o destino das rosas e outras flores: despedaçarem-se até apodrecer, deteriorar. Menos as de plástico, elas não morrem. Não sou de plástico nem sou flor-que-se-cheire, como o Caetano: “juro que eu não presto”.

Enfim chego ao destino, destino é lugar de chegada? Chego mesmo que não seja e me encerro, cerro, cerração, hoje não tem neblina mas não está mais tudo azul, tudo “blues”: Janis às vezes usava flores nos cabelos.


III.

Perguntei se destino era lugar de chegada, lembra? Chegada, pouso, repouso é fim da inquietude? Então não cheguei porque chegar é fim de viagem.

Arnaldo bate com os punhos fechados em seu próprio peito, depois, seguindo no crescendo da canção, grita: “eu já disse adeus, eu já disse adeus [...] aqui não tem amor!”. Blefe de poeta, ops, de seu “eu lírico”. Não tivesse amor não explodiria um grito. Arnaldo sabe, por isso blefa. Coração fechado com as chaves jogadas fora? Ora, isso é o que se quer dizendo que não, SQN. Quisesse mesmo não avisava, não cantava, não gritava.

O grito suplica para que batam na porta, pancadas daquelas que quase arrebentam as dobradiças. Urgências, arrebatamento, paixão, como as guitarras de Edegard Scandurra e/ou de Pete Townshend. Who?

Qualquer poema escancarado, tudo me serve, tudo me implode.

Tudo começou quando falei de flores, lembra? Dead flowers, as flores no cabelo de Janis, flores de plástico que não morrem, as rosas nas mãos do vendedor, ele as oferecia no cruzamento da minha vida, o sinal fechado estancando o fluxo de sangue nas veias...pulso...pulso...pulso. Tá tudo errado, o sinal para seguir deveria ser o vermelho arterial.

Queria mesmo te convidar pra correr estrada, ouvir blues, ficarmos bêbados e desmaiarmos nus, aí sim, destino, mas não ponto de chegada, só pit stop.
Não tem essa de “meu momento atual”, nem isso e aquilo. Faltou mesmo foi tesão: posso conviver com tua ausência de paixão, não com a minha.

Sou Keith Richard esvaindo-me em cigarros e riffs. Sou Cazuza exageradamente transtornado no lado escuro da vida. Sou o grito de uma canção desesperada de amor: “Layla, you've got me on my knees!”


IV.

So what?

Quem disse que jazz não explode?

Miles, Chet, Nina, Ella, John Coltrane e a descendência toda desesperadamente blues: Bessie, Billie, Janis e Amy.

Jazz explode, só que em algo meio azul, aquele azulado noturno das regiões dos bares, pessoas circulando com long necks nas mãos, encontrando, perdendo ou só circulando mesmo, andando em voltas, às voltas com desejos, alguns confessáveis, outros não. Desejos que não se sabem.

You might find the night time the right time for kissing

Azul, azuis. Azul-melancolia, existe? Você me disse que via melancolia em meu olhar, lembra? É minha cor preferida, é um Kind of Blue.

Onde termina o blues e começa o jazz?

Não estou perguntando sobre tons, acordes, andamento, escala! Quero, preciso desesperadamente saber onde termina uma dor e começa outra. Ou não, simplesmente salto de um lado ao outro e é a mesma dor? Pain to heal pain, “dor para curar a dor”, explicou o velho bluesman.

Quero saber também porque todo mundo pensa que o dia aparece, surge, emerge, quando na verdade é a noite que se escancara sem pudor algum, explode em blues: “love me or leave me or let me be lonely”.

Você não sabia? Não se ‘mergulha’ na noite, é ela que nos afoga. De novo a imprecisão do instante em que a noite sai de dentro do dia, mergulho às avessas, encruzilhada, passagem, sinal fechado, não há azul no semáforo...

... nem flores azuis nas mãos do vendedor.

E daí?



RJdS, janeiro blues, 2018

18 de jan. de 2018

Le fantasme

Marlène Raymaekers, Daphné et Apollon, s/d
               







                        

Rafael José dos Santos


                        Tu, fantasma,
                        açoite de meu
                        desejo aflito,
                        estás
                        onde não te busco,
                        enuncia-me
                        com palavras
                        que me furtas.


                         Oferece-te,
                         fantasma,
                         para que eu
                         em travessia
                         e desespero
                         enfrente
                         a tormenta,
                         correntes
                         ventos e
                         vagas,
                         com
                         amarga
                         lucidez,
                         tamanha
                         e tanta,
                         que me penso
                         naufragado
                         em ti,
                         
                         quando na praia
                         meu corpo,
                         arremessado e
                         só,
                         pela primeira vez
                         em fugaz verdade,
                         abandonado
                         repouse enfim.

                                                                                      RJdS - 18/01/2018











                                                                        



                                                                        

11 de jan. de 2018

“E NÃO PENSA QUE EU FUI POR NÃO TE AMAR”: LOS HERMANOS, JACQUES-ALAIN MILLER E OS “SERIAL LOVERS”

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Macuri Peteffi

&


Rafael José dos Santos













CENA I



           A canção traz o título de “Adeus você”, composição de Marcelo Camelo, e está no álbum sintomaticamente intitulado “Bloco do eu sozinho” (2001). Na letra-poema, o “eu lírico” abandona o outro sob o pretexto de um imperativo que, contra seu próprio discurso, pode ser interpretado nos termos de uma incapacidade de amar:

Adeus você
Eu hoje vou pro lado de lá
Eu tô levando tudo de mim
Que é pra não ter razão pra chorar
Vê se te alimenta
E não pensa que eu fui por não te amar

Cuida do teu
Pra que ninguém te jogue no chão
Procure dividir-se em alguém
Procure-me em qualquer confusão
Levanta e te sustenta
E não pensa que eu fui por não te amar

Quero ver você maior, meu bem
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante

Adeus você
Não venha mais me negacear
Teu choro não me faz desistir
Teu riso não me faz reclinar
Acalma essa tormenta
E se aguenta, que eu vou pro meu lugar

É bom às vezes se perder
Sem ter porquê, sem ter razão
É um dom saber envaidecer
Por si, saber mudar de tom

Quero não saber de cor também
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante

            Trata-se da “liberação do outro” para que o “eu lírico” possa cuidar de si mesmo em “seu lugar”, um lugar que lhe é próprio, exclusivo e excludente: um lugar no qual o outro não cabe, logo, não é um lugar comum aos dois, um espaço necessário às trocas que constituem o amor. A voz que se despede sustenta um discurso de aparente cuidado para com o outro (“Cuida do teu / Pra que ninguém te jogue no chão / Procure dividir-se em alguém”), mas não esconde o ato egoísta do abandono, reiteradamente repetido ao final: ”Pra que a minha vida siga adiante”.  

            Conselhos e afagos da parte de quem abandona surtem no abandonado um efeito contrário e o sujeito-que-foge “sabe” disso. O discurso do cuidado se trai, (como todo discurso): “Procure dividir-se em alguém”, ou seja: procure alguém que, aceitando sua falta, lhe dê o algo que eu nego.

            Nota-se a urgência de uma fuga e as precauções para que ele mesmo, o “eu lírico”, não reincida, não se dobre ao amar. Há um jogo de linguagem bastante revelador quando aquele que foge diz “Não venha mais me negacear”. Negacear, como verbo transitivo, significa “Fazer negaças a; seduzir por meio de negaças; provocar, enganar”, mas também “recusar” e “negar” (Dicionário Online de português). Negaças, segundo o Houaiss, é substantivo feminino: “artifício para iludir ou seduzir; ardil, logro”.

            Na letra/poema, quem foge, foge do quê? Quem recusa, recusa o quê? Por que o receio da sedução pelo objeto abandonado? Ocorrem aqui as palavras de Jacques-Alain Miller:

Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que creem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias[1].


            Seria o “eu lírico” um/a serial lover, ele/a mesmo/a? Após o jogo da sedução, retira-se da cena, do espaço comum, e num lapso de linguagem solicita, numa inversão perversa de papéis, que o outro não o seduza. Quem opta pela solidão? Quem a ela está condenado/a pelo ato do abandono?

            Neste caso, com o sintoma de uma falta não confessada, nem ao outro nem a si mesmo/a, o “eu lírico” se apresenta como um/a perverso/a que certamente não irá “seguir adiante”, mas prosseguir na repetição causando perdas e danos a si mesmo e ao seu redor:
O perverso permanece cativo de uma economia desejante que o priva desse direito ao desejo. Ele se exaure na tentativa de demonstrar, a contrário, que a única lei que reconhece no desejo é a lei imperativa do seu próprio desejo, e não a do desejo do outro[2].
            O sujeito-que-foge sabe-se objeto do desejo, [“a”], mesmo que, lugar comum na psicanálise, não saiba que sabe. É sua verdade ou, se alguém preferir, sua ficção: é o sujeito que se queixa repetidamente de sua própria inconstância, queixa que é também álibi de sua estrutura. É seu saber-se objeto do desejo do outro que conota sua perversidade: atrai (a trai, ou o trai) já antecipando o abandono.
            Marcelo Camelo, falamos agora do compositor, não de seu “eu lírico”, não deixa um espaço sequer de esquiva na relação do sujeito que foge do amor com a potência da rachadura produzida pela dinâmica arrebatadora da perda, do deixar, do desfazer e do desatar. O artista, neste caso o letrista-poeta, surge como o interlocutor do inconsciente com a cultura e os seus mais diversos modos de produção, arrisca e acerta os pontos sensíveis dos sentidos desnorteadores do desamor. Lembrarmo-nos de Jacques Lacan, que não deixou por menos: “[O psicanalista deve] se lembrar, com Freud, que em sua matéria o artista sempre o precede, e que ele não deve se meter a psicólogo ali onde o artista lhe abre os caminhos” [3]. Não se trata de psicologizar ou psicanalisar o artista, sua escritura musical e poética. Na contramão disto o artista e o amor não se deixam fisgar pelo apelo da consciência.

            É ainda nesta levada que Marcelo Camelo parece, ao olhar como olhamos agora, para o amor e suas estruturas, ter sido atento (sem o saber?) à Jacques Alain-Miller e Caetano Veloso. “Se em Miller encontramos “..mas do amor não conhecem nem os riscos, nem as delícias”,  em Caetano localizamos uma de suas ideias “mais-ainda” repetidas: “... cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Aí, nos parece acontecer um encontro entre o amor e seus riscos, o amor e suas dores e o amor e suas delícias. Um tripé pouco conveniente aos sujeitos que podem idealizar o amor como um campo de repouso e descanso para as suas pulsões.

            A premissa de senso comum acerca do “estar-bem-consigo-mesmo” para só então estar pronto para o amor é, portanto, rigorosamente uma falácia, produto do individualismo-sintoma na cultura do narcisismo, uma vez que o amor se fundamenta necessariamente no assumir uma falta. De novo com Miller: “amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo”. Ir “além de si mesmo”.

            O discurso da autossuficiência encontra eco, ao mesmo tempo em que é um dos elementos estruturantes, da cultura contemporânea. Um de seus riscos é fazer o Sujeito acreditar (porque não se trata de “má fé”) que ele ou ela pode supri(mi)r sua própria falta, o que lhe fornece também a ilusão da proteção contra o sofrimento que poderia ser-lhe impingido pelo outro. Assim fala a ilusão da autossuficiência:

Eu tô solteira porque relacionamento não é tentativa, não é oportunidade é investimento. Investimento de tempo. Eu to solteira porque talvez eu queira curtir essa fase sem ninguém, quero organizar a minha vida refazer meus planos. Eu to solteira porque estou bem assim, porque não quero alguém pra diminuir, quero alguém que venha para somar[4].

            Não há lugar para risco ou tentativa, aspectos de qualquer relacionamento, uma vez que o “investimento” deve trazer lucros sem riscos. Como, entretanto, amar sem correr riscos? Querer “alguém que venha para somar” é solicitar um acréscimo, não um preenchimento; um suplemento, não um complemento. É negar a natureza relacional...dos relacionamentos! Esse é o discurso sustentado na contemporaneidade e que encobre, sob a capa de uma aparentemente saudável autopreservação, o medo do abismo do Amor.
            Ir “além de si mesmo” é desprender-se, como na estrofe de Beto Guedes em Medo de amar:

O medo de amar é não arriscar
Esperando que façam por nós                                                                             
O que é nosso dever: recusar o poder.

            A recusa do poder é a recusa da autossuficiência, condição sine qua non da entrega, qualquer entrega amorosa, seja a um outro singular, seja a uma causa coletiva.
            O estilo arrasador do desamor vai provocar em seus “seriais”, seriados e séries, narrativas censuradas, discursos fragmentados e capítulos apagados. É neste enrosco que o não-cessar pulsional coloca os sujeitos nos movimentos amorosos e onde os seus inconsciente podem, ou não, se encontrar. O/a perverso/a é um triste condenado ao não-encontro.

*
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[1] MILLER, Jacques-Alain. “Para Amar, É Necessário Reconhecer Que Se Tem Necessidade Do Outro”. Disponível em: http://www.portalraizes.com/amarreconhecernecessidade/. Acesso em 09/01/2018.


[2] KAUFMANN, Pierre. (Ed). Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996. p. 421. 
[3] LACAN, Jacques. “Hommage fait à Marguerite Duras, du ravissement de Lol V. Stein », in : Marguerite Duras, Paris, Albatros, 1979.

[4]  Thamilly Rozendo. Vem cá que eu te conto porque to solteira. In: SIMÕES. Fabíola. Soma de todos os afetos. Disponível em: http://www.asomadetodosafetos.com/2016/05/vem-ca-que-eu-te-conto-porque-to-solteira.html. Acesso em 11/01/2018. Sugerimos a leitura na íntegra por tratar-se de um texto revelador do narcisismo contemporâneo.

Lênin sim!

(Rafa) Tatiana Dias e Rafael Moro Martins, autores do artigo " ELOGIAR DITADORES É A MELHOR MANEIRA DE A ESQUERDA CONTINUAR ...