11 de jan. de 2018

“E NÃO PENSA QUE EU FUI POR NÃO TE AMAR”: LOS HERMANOS, JACQUES-ALAIN MILLER E OS “SERIAL LOVERS”

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Macuri Peteffi

&


Rafael José dos Santos













CENA I



           A canção traz o título de “Adeus você”, composição de Marcelo Camelo, e está no álbum sintomaticamente intitulado “Bloco do eu sozinho” (2001). Na letra-poema, o “eu lírico” abandona o outro sob o pretexto de um imperativo que, contra seu próprio discurso, pode ser interpretado nos termos de uma incapacidade de amar:

Adeus você
Eu hoje vou pro lado de lá
Eu tô levando tudo de mim
Que é pra não ter razão pra chorar
Vê se te alimenta
E não pensa que eu fui por não te amar

Cuida do teu
Pra que ninguém te jogue no chão
Procure dividir-se em alguém
Procure-me em qualquer confusão
Levanta e te sustenta
E não pensa que eu fui por não te amar

Quero ver você maior, meu bem
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante

Adeus você
Não venha mais me negacear
Teu choro não me faz desistir
Teu riso não me faz reclinar
Acalma essa tormenta
E se aguenta, que eu vou pro meu lugar

É bom às vezes se perder
Sem ter porquê, sem ter razão
É um dom saber envaidecer
Por si, saber mudar de tom

Quero não saber de cor também
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante

            Trata-se da “liberação do outro” para que o “eu lírico” possa cuidar de si mesmo em “seu lugar”, um lugar que lhe é próprio, exclusivo e excludente: um lugar no qual o outro não cabe, logo, não é um lugar comum aos dois, um espaço necessário às trocas que constituem o amor. A voz que se despede sustenta um discurso de aparente cuidado para com o outro (“Cuida do teu / Pra que ninguém te jogue no chão / Procure dividir-se em alguém”), mas não esconde o ato egoísta do abandono, reiteradamente repetido ao final: ”Pra que a minha vida siga adiante”.  

            Conselhos e afagos da parte de quem abandona surtem no abandonado um efeito contrário e o sujeito-que-foge “sabe” disso. O discurso do cuidado se trai, (como todo discurso): “Procure dividir-se em alguém”, ou seja: procure alguém que, aceitando sua falta, lhe dê o algo que eu nego.

            Nota-se a urgência de uma fuga e as precauções para que ele mesmo, o “eu lírico”, não reincida, não se dobre ao amar. Há um jogo de linguagem bastante revelador quando aquele que foge diz “Não venha mais me negacear”. Negacear, como verbo transitivo, significa “Fazer negaças a; seduzir por meio de negaças; provocar, enganar”, mas também “recusar” e “negar” (Dicionário Online de português). Negaças, segundo o Houaiss, é substantivo feminino: “artifício para iludir ou seduzir; ardil, logro”.

            Na letra/poema, quem foge, foge do quê? Quem recusa, recusa o quê? Por que o receio da sedução pelo objeto abandonado? Ocorrem aqui as palavras de Jacques-Alain Miller:

Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que creem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias[1].


            Seria o “eu lírico” um/a serial lover, ele/a mesmo/a? Após o jogo da sedução, retira-se da cena, do espaço comum, e num lapso de linguagem solicita, numa inversão perversa de papéis, que o outro não o seduza. Quem opta pela solidão? Quem a ela está condenado/a pelo ato do abandono?

            Neste caso, com o sintoma de uma falta não confessada, nem ao outro nem a si mesmo/a, o “eu lírico” se apresenta como um/a perverso/a que certamente não irá “seguir adiante”, mas prosseguir na repetição causando perdas e danos a si mesmo e ao seu redor:
O perverso permanece cativo de uma economia desejante que o priva desse direito ao desejo. Ele se exaure na tentativa de demonstrar, a contrário, que a única lei que reconhece no desejo é a lei imperativa do seu próprio desejo, e não a do desejo do outro[2].
            O sujeito-que-foge sabe-se objeto do desejo, [“a”], mesmo que, lugar comum na psicanálise, não saiba que sabe. É sua verdade ou, se alguém preferir, sua ficção: é o sujeito que se queixa repetidamente de sua própria inconstância, queixa que é também álibi de sua estrutura. É seu saber-se objeto do desejo do outro que conota sua perversidade: atrai (a trai, ou o trai) já antecipando o abandono.
            Marcelo Camelo, falamos agora do compositor, não de seu “eu lírico”, não deixa um espaço sequer de esquiva na relação do sujeito que foge do amor com a potência da rachadura produzida pela dinâmica arrebatadora da perda, do deixar, do desfazer e do desatar. O artista, neste caso o letrista-poeta, surge como o interlocutor do inconsciente com a cultura e os seus mais diversos modos de produção, arrisca e acerta os pontos sensíveis dos sentidos desnorteadores do desamor. Lembrarmo-nos de Jacques Lacan, que não deixou por menos: “[O psicanalista deve] se lembrar, com Freud, que em sua matéria o artista sempre o precede, e que ele não deve se meter a psicólogo ali onde o artista lhe abre os caminhos” [3]. Não se trata de psicologizar ou psicanalisar o artista, sua escritura musical e poética. Na contramão disto o artista e o amor não se deixam fisgar pelo apelo da consciência.

            É ainda nesta levada que Marcelo Camelo parece, ao olhar como olhamos agora, para o amor e suas estruturas, ter sido atento (sem o saber?) à Jacques Alain-Miller e Caetano Veloso. “Se em Miller encontramos “..mas do amor não conhecem nem os riscos, nem as delícias”,  em Caetano localizamos uma de suas ideias “mais-ainda” repetidas: “... cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Aí, nos parece acontecer um encontro entre o amor e seus riscos, o amor e suas dores e o amor e suas delícias. Um tripé pouco conveniente aos sujeitos que podem idealizar o amor como um campo de repouso e descanso para as suas pulsões.

            A premissa de senso comum acerca do “estar-bem-consigo-mesmo” para só então estar pronto para o amor é, portanto, rigorosamente uma falácia, produto do individualismo-sintoma na cultura do narcisismo, uma vez que o amor se fundamenta necessariamente no assumir uma falta. De novo com Miller: “amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo”. Ir “além de si mesmo”.

            O discurso da autossuficiência encontra eco, ao mesmo tempo em que é um dos elementos estruturantes, da cultura contemporânea. Um de seus riscos é fazer o Sujeito acreditar (porque não se trata de “má fé”) que ele ou ela pode supri(mi)r sua própria falta, o que lhe fornece também a ilusão da proteção contra o sofrimento que poderia ser-lhe impingido pelo outro. Assim fala a ilusão da autossuficiência:

Eu tô solteira porque relacionamento não é tentativa, não é oportunidade é investimento. Investimento de tempo. Eu to solteira porque talvez eu queira curtir essa fase sem ninguém, quero organizar a minha vida refazer meus planos. Eu to solteira porque estou bem assim, porque não quero alguém pra diminuir, quero alguém que venha para somar[4].

            Não há lugar para risco ou tentativa, aspectos de qualquer relacionamento, uma vez que o “investimento” deve trazer lucros sem riscos. Como, entretanto, amar sem correr riscos? Querer “alguém que venha para somar” é solicitar um acréscimo, não um preenchimento; um suplemento, não um complemento. É negar a natureza relacional...dos relacionamentos! Esse é o discurso sustentado na contemporaneidade e que encobre, sob a capa de uma aparentemente saudável autopreservação, o medo do abismo do Amor.
            Ir “além de si mesmo” é desprender-se, como na estrofe de Beto Guedes em Medo de amar:

O medo de amar é não arriscar
Esperando que façam por nós                                                                             
O que é nosso dever: recusar o poder.

            A recusa do poder é a recusa da autossuficiência, condição sine qua non da entrega, qualquer entrega amorosa, seja a um outro singular, seja a uma causa coletiva.
            O estilo arrasador do desamor vai provocar em seus “seriais”, seriados e séries, narrativas censuradas, discursos fragmentados e capítulos apagados. É neste enrosco que o não-cessar pulsional coloca os sujeitos nos movimentos amorosos e onde os seus inconsciente podem, ou não, se encontrar. O/a perverso/a é um triste condenado ao não-encontro.

*
*   *

           




[1] MILLER, Jacques-Alain. “Para Amar, É Necessário Reconhecer Que Se Tem Necessidade Do Outro”. Disponível em: http://www.portalraizes.com/amarreconhecernecessidade/. Acesso em 09/01/2018.


[2] KAUFMANN, Pierre. (Ed). Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996. p. 421. 
[3] LACAN, Jacques. “Hommage fait à Marguerite Duras, du ravissement de Lol V. Stein », in : Marguerite Duras, Paris, Albatros, 1979.

[4]  Thamilly Rozendo. Vem cá que eu te conto porque to solteira. In: SIMÕES. Fabíola. Soma de todos os afetos. Disponível em: http://www.asomadetodosafetos.com/2016/05/vem-ca-que-eu-te-conto-porque-to-solteira.html. Acesso em 11/01/2018. Sugerimos a leitura na íntegra por tratar-se de um texto revelador do narcisismo contemporâneo.

28 de nov. de 2017

Língua adotiva







                                                 Xavier Vatin*

Acabo de entender, depois de 10 anos de inquietação, angústia e perplexidade, o porquê  da minha imensa dificuldade em falar francês, minha língua materna, com meus filhos no dia-a-dia. Muito antes de eles nascerem, sempre tive a convicção da importância do bilinguismo precoce. Sempre imaginei as melhores formas de exercer esse bilinguismo tão útil para o futuro deles, além de muito positivo do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, segundo os especialistas (tenho vários livros sobre o tema). 

Contudo, ao longo dos últimos dez anos (minha filha Luna tem 11 e meu filho Luca tem 7), nunca consegui falar regular e/ou diariamente francês com eles, aqui no Brasil. Na ocasião de curtas viagens de férias na França para visitar a família, Luna, contudo, demonstrou uma notável facilidade para entender e falar francês (fato este que vinha amenizar meu sentimento de culpa). Da última vez que fomos, o ano passado, quando Luca tinha 6 anos, ele também já demonstrou uma certa facilidade na compreensão da língua. 

Mesmo assim, até o fatídico dia de hoje, fazia dez anos que eu buscava entender as razões do meu bloqueio em falar minha língua materna com meus filhos. Entre elas, sempre considerei que o fato de viver no Brasil e estar inserido cotidianamente na realidade local (trabalho, escola, vida doméstica) era a razão essencial desta recorrente dificuldade. Afinal, é bem mais fácil falar português na realidade diária brasileira do que tentar falar, “artificialmente”, o francês. 

Diante de tamanha dificuldade, tentei estabelecer, ao longo dos anos, diversas regras: falar francês em casa com eles dois, falar francês um determinado dia da semana, falar francês algumas horas por dia, ler histórias em francês para eles... Comprei, de fato, dezenas de livros em francês para eles e já consegui ler algumas vezes, na integralidade, “O Pequeno Príncipe”, para ambos, quando eram mais novos. Mas a experiência de leitura, até hoje, não foi muito além dessa narração noturna da obra prima de Saint Exupéry... 

Mais uma vez, me sinto um pouco menos culpado quando vejo a relativa fluência de Luna na ocasião das referidas curtas viagens à França – fluência notável e até surpreendente, repito, diante da pouca exposição dela à língua materna do pai dela. 

Ora, hoje à noite, tentando contar para Luca a história da vida dele em francês na hora de colocar ele para dormir, entendi finalmente, repentinamente, a causa profunda, verdadeira, desses dez anos de desencontro perturbador com a minha língua materna. 

O português do Brasil tem se tornado, ao longo dos últimos 25 anos, a minha língua adotiva, a língua na qual aprendi a expressar meus sentimentos, minhas emoções, de uma forma que eu nunca tinha conseguido na minha língua materna, o francês. 

Vivi uma infância feliz, porém marcada, aos 7 anos, por uma ruptura abrupta, profunda. Deste trauma inaugural do ser humano que sou até hoje, seguiram longos anos de silêncio, emoções sufocadas, choros escondidos, palavras nunca ditas. Até os 21 anos de idade, quando vim para a Bahia pela primeira vez, eu ainda era essa criança de 7 anos absolutamente inapta a expressar, verbalizar seus sentimentos, suas inquietações, seus medos, suas raivas contidas, suas dores, suas feridas abertas. 

A Bahia me ofereceu a possibilidade de me expressar de uma forma nova, inédita, salvadora. Ao longo dos últimos 25 anos, aprendi, inconscientemente, a libertar uma fala presa há tantos anos. E essa libertação aconteceu, gradualmente, nessa nova língua adotiva. 

Portanto, acredito, hoje, que a minha extrema dificuldade em falar francês com meus filhos, aqui no Brasil, no dia-a-dia, seja a consequência dessa história um tanto peculiar. A língua portuguesa tem se tornado, para mim, muito mais do que uma segunda língua. A língua portuguesa, para mim, foi e continua sendo um instrumento de libertação psíquica e emocional. 

Hoje, tentando contar sua história de vida para meu amado filho na minha língua materna, ao meu ouvir falando, buscando as palavras com dificuldade, palavras estranhamente isentas de afeto, compreendi, finalmente. Parei. Refleti. E prossegui a narrativa até ele dormir... Porém, em português, reencontrando instantaneamente fluência e afeto. 

Concluo afirmando que, para mim, a língua do afeto, a língua da libertação e da transmissão do amor filial, não é a minha língua materna, mas sim a minha língua adotiva. 

A Bahia teve a bondade de me adotar quando me joguei nos braços dela, 25 anos atrás, em busca de um abraço salvador e libertador. A Bahia fez de mim um homem novo, mais livre do que a criança e o jovem adulto enclausurado em si que eu era e sempre fui na minha terra natal e na minha língua materna. 

A língua portuguesa tem sido o instrumento da minha alforria emocional. 

Axé! 

Xavier Vatin


* Xavier Vatin é francês e foi adotado pela Bahia aos 21 anos de idade, quando passou a conviver com Pierre Verger e iniciar pesquisas etnomusicologicas sobre o candomblé. Professor de antropologia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia desde 2006 e com pesquisas sobre as musicas afro-atlânticas, Vatin é pai de dois filhos franco-baianos, Luna, 11 anos, e Luca, 7 anos.

12 de abr. de 2017

Para aprender sociologia: uma introdução

Clicando aqui você pode fazer o download gratuito do meu e-book: Para aprender sociologia: uma introdução.

Ele foi escrito em linguagem acessível para todos aqueles que se interessam em saber um pouco sobre a Sociologia e o estudos dos fenômenos sociais.

Um pedacinho da Introdução:


Provavelmente a Sociologia seja uma novidade para você, aluno do Ensino Médio ou de algum curso superior, ou ainda, quem sabe, apenas alguém que abriu este pequeno livro para saber um pouco mais. Iniciamos aqui nossa conversa.
A Sociologia pode estar entrando agora em sua vida, mas a sociedade está ao seu redor, está dentro de você, e você nela, desde os primeiros dias de sua infância. Vamos pensar em um exemplo bem comum: você se comunica com outras pessoas. Mas para que isso aconteça você teve que aprender um código, uma língua. Ela lhe foi ensinada aos poucos, primeiro no ambiente familiar, depois também na escola.
O fato de aprender a comunicar-se já é um sinal da presença da sociedade dentro de você. E você não aprendeu apenas isso, mas também a vestir-se, alimentar-se de determinada maneira, comportar-se, enfim, uma série de normas e valores que são sociais, vieram de fora para dentro de você. Acontece, contudo, que esse processo de aprendizagem ocorre de tal maneira que aparece a cada um de nós como algo natural, isto é, não social.
Além de percebermos o social como natural, também vivenciamos as coisas da sociedade como acontecimentos individuais. Em seu dia a dia, você vai às aulas, faz compras, trabalha, convive com a família e com amigos, fica irritado, feliz, triste. Cada ser humano percebe e sente sua vida como algo particular, pessoal.
Entretanto, muitas pessoas vão às aulas, fazem compras, convivem com famílias e amigos, irritam-se, ficam felizes ou tristes. Você dirá: é óbvio que é assim. Sim, é óbvio, mas não é dessa maneira que experimentamos o mundo cotidiano. Nós o vivenciamos como algo pessoal. Estar desempregado, por exemplo, é algo que traz angústia, insegurança e preocupação. Se alguém atravessa uma fase assim, não irá pensar no desemprego como um fenômeno social. Um trabalhador que perdeu o emprego porque aconteceu uma crise financeira mundial não ficará analisando as razões econômicas e sociais da crise. Ele terá coisas imediatas com as quais se preocupar.
Quando você tem que enfrentar o cotidiano da escola, no nível médio ou na faculdade, não irá pensar o tempo todo na estrutura do ensino ou na relação entre a educação, as transformações no mundo do trabalho e suas consequências sociais. Quando vai às compras, não tentará estabelecer vínculos entre os meios de comunicação, a publicidade e os interesses das grandes empresas globais. Ou seja: nem sempre pensamos sobre aquilo que vivenciamos no dia a dia.

Por outro lado, em algumas ocasiões pode acontecer de você refletir sobre como as pessoas estão se tornando mais individualistas, consumistas, ou como, na vida contemporânea, o tempo parece menor. Assistindo notícias na TV, você pode indignar-se com a violência e a corrupção. Ou seja, coisas que acontecem na sociedade. Interessar-se por Sociologia é, antes de tudo, interessar-se pela sociedade. Esse é o primeiro passo.

28 de fev. de 2017

Na encruzilhada, de joelhos: “dor para curar a dor” *

Rafael José dos Santos


Em 1995, recém chegado em Nova Iorque com uma bolsa de estudos, descobri que John Hammond iria dar um show no Museu de História Natural. Para quem não o conhece, John Hammond é um daqueles bluesmen que faz a música soar como se estivéssemos em algum lugar entre o Mississipi e a Louisiana.

Chegando ao Museu (aliás, um lugar improvável para um show de blues), fui abordado por um norte-americano que me pediu informações sobre onde comprar o ingresso. Entramos juntos na fila do guichê e, após cinco minutos de conversa, ele me veio com algo mais ou menos assim: “– Como um cara do Brasil sabe algo sobre blues?”.  

            Fiquei extremamente ofendido e comecei a desfiar uma série de nomes de cantores, álbuns, canções, além de sugerir ao homem que sabíamos muita coisa no Brasil, mas eles sabiam quase nada de nós. O norte-americano ficou meio sem jeito e pediu desculpas. Entrou comigo no espaço reservado ao show, assistimos John Hammond, performance incrível como sempre, depois saímos juntos conversando. Hoje, só no espaço de tempo em que escrevo essas linhas, já trocamos uns três ou quatro e-mails. Em um deles ele relembra o episódio e me pergunta de gozação: “-What does a guy from Brazil know about the blues?” (O que um cara do Brasil sabe sobre o blues?). O blues forjou uma amizade que se estende há mais de dez anos, sem perda de contato, e cada visita do amigo é uma enxurrada generosa de livros e CDs.

            No mesmo e-mail o amigo Tony cita uma frase de Sonny Boy Williamson: "White guys want to play the blues so bad, but, man, all they do play the blues so bad." O trocadilho do velho bluesman só faz sentido em inglês devido à ambiguidade da palavra “bad”, que no contexto significa querer “muito” e tocar “mal”: Caras brancos querem muito tocar o blues, mas todos eles tocam realmente muito mal.

     O filme Crossroads (1986, direção de Walter Hill com a impecável produção musical de Ry Cooder) trata disso de modo interessante: um garoto branco de Nova Jersey diz ao velho homem negro que é um bluesman. O homem, supostamente o lendário Willie Brown, amigo de Robert Johnson, ironiza o menino e a partir daí começa um verdadeiro rito de iniciação, com uma peregrinação ao sul dos Estados Unidos. O resto, só vendo o filme.

Williamson, felizmente, não tinha razão. O próprio John Hammond é prova disso, como também Eric Clapton, quando quer tocar blues, ou John Mayall. Caras brancos e brasileiros também sabem tocar o blues, é só ouvirmos o que rola por Caxias do Sul para saber. Mas qual é a magia desse estilo, na verdade um conjunto de estilos que foram se formando através de mesclas diversas? Muitos de minha geração chegaram ao blues por um percurso inverso que começou com o rock.

O norte-americano McKinley Morganfield nos diz: “Well you know the blues got pregnant / And they named the baby rock& roll” (Bem, vocês sabem, o blues ficou grávido / e deram à criança o nome de rock & roll). Soa familiar? Mr. Morganfield é mais conhecido como Muddy “Mississipi” Waters, um nome interessante: tanto pode ser entendido como um homem chamado Muddy Waters vindo do Mississipi, estado onde nasceu em 1915, como, literalmente, “águas lamacentas do Mississipi”, rio que se tornou sagrado para o blues.

A vida de Muddy Waters é a metáfora da história do blues: nascido no sul dos Estados Unidos, Muddy migrou para Chicago, onde faleceu em 1983. Só que em Chicago o blues não morreu, ganhou nova face, dizem, pela introdução da guitarra elétrica pelas mãos de Muddy que, curiosamente, não era um virtuose no instrumento.

De qualquer maneira, se o blues é pai e mãe do rock, Muddy Waters certamente é um de seus padrinhos. Mas, e os avós da criança? O musicólogo norte-americano Eric Lomax defende a ideia de que o blues origina-se do estilo dos cantores griot do Sudão, poetas da tradição oral e narradores da vida cotidiana, mas sugere que se possa retroceder ainda mais, até as melodias melancólicas do antigo oriente que ele caracteriza como “queixas” (complaints) dirigidas a divindades ou aos senhores de terras por camponeses submetidos a duras condições de trabalho e altos impostos. O estilo teria migrado para o Sudão, para o leste da África e de lá atravessado o Atlântico na diáspora impingida aos povos negros.


Em um álbum excepcional, produzido por Lomax, Roots of the Blues (Raízes do Blues. New World Records, 1977), há pistas desse percurso. Na primeira faixa aparecem, intercaladas, a música Louisiana cantada por Henry Ratcliff euma Field Song from Senegal (Canção do campo, do Senegal), entoada por Bakari-Badji. O contraponto ilustra melhor que qualquer explicação escrita as similaridades na entonação, sobretudo o sentimento da solidão de quem canta.

Roots of the blues é mais que um álbum: é um documento imprescindível sobre a história dessa música que desaguou, como as águas do velho Mississipi, em tantas variantes musicais, do jazz ao rock. Quando indígenas norte-americanos falantes da língua Ojibwe batizaram o “grande rio” de  misi-ziibi, não podiam saber o que ele viria a significar mais tarde.

No mesmo álbum organizado por Lomax é possível ouvir canções de trabalho (working songs) que o pesquisador gravou de um grupo de prisioneiros de uma penitenciária rural. Lomax afirma que no extremo sul dos Estados Unidos essas instituições penais eram como extensões das plantações de algodão. Compasso marcado pelas pás e picaretas, um lamento triste pauta o ritmo do trabalho, como Berta, Berta:

O Lord, Berta, Berta, O Lord, gal oh-ah (Oh Senhor, Berta, Berta, oh Senhor, garota.)
O Lord, Berta, Berta, O Lord, gal well. (Oh Senhor, Berta, Berta, oh Senhor, garota.)

Go ‘head marry, don’t you wait on me oh-ah, (Vá em frente e se case, não espere por mim)
Go ‘head marry, don’t you wait on me well, (Vá em frente e se case, não espere por mim)

Might not want you when I go free oh-ah,
(Posso não querer você quando eu for livre)
Might not want you when I go free well.
(Posso não querer você quando eu for livre)

            Berta, Berta pode ser ouvida também em outro álbum que traça a história do blues e do jazz de modo magnífico: I heard you twice the first time, de Branford Marsalis  (Sony, 1992). Eu diria que esse trabalho de Marsalis, junto com a coletânea de Lomax, são verdadeiros temas de casa para aqueles que querem saber do blues.

            Uma estrutura consagrada no blues é a da repetição e síntese, como no célebre Crossroad blues de Robert Johnson:

I went to the crossroad, fell down on my knees
I went to the crossroad, fell down on my knees
(Eu fui à encruzilhada e caí sobre meus joelhos)
Asked the Lord above "Have mercy, now save poor Bob, if you please"
(Pedi ao Senhor acima, “tenha piedade, salve o pobre Bob agora, por favor)

            Robert Leroy Johnson, como Muddy Waters, nasceu no Mississipi. Há dúvidas em relação à exatidão do ano, mas fala-se em 1911. Faleceu, segundo a lenda, após tomar um whisky envenenado por um dono de bar enciumado por Johnson haver paquerado sua mulher: morte de bluesman. Entre 1936 e 1937 gravou 41 faixas, das quais 13 canções foram repetidas duas vezes, e está tudo registrado na coletânea Robert Johnson – The Complete Recordings, que pode ser encontrada em CD, mas, se possível, recomendo fortemente a caixa com três bolachões de vinil lançada no Brasil pela Columbia em 1990.

            A lenda acerca do pacto que Robert Johnson teria feito com o diabo (afinal, quem era o Lord above da encruzilhada?) é significativa se lembrarmos que no Brasil, o orixá Legba ou Exu foi sincretizado também com a figura do demônio. Os domínios de Legba são os cruzamentos dos caminhos, das estradas, os crossroads. Por outro lado recorre também o tema de Fausto, o acordo com Mefistófeles que leva o demandante ao sucesso à custa de sua alma. Em Crossroads, o filme, o diabo é o empresário e a compra da alma (soul) é a submissão ao mercado que destruiria a essência do blues.

Não tenho certeza se as lendas e mitos do blues devam ser “esclarecidos” à luz de alguma historiografia, e se alguém já o fez, não sei se vou querer ler. Isso pode soar até como injúria, vindo de alguém que tem as ciências humanas por ofício, mas convenhamos: alguma magia deve encantar o mundo, mesmo para um sociólogo. Uma das poucas racionalizações que não se pode abrir mão é a lembrança de que nada havia de romântico nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos: os cotton fields eram lugar de sofrimento, penúria, e o lamento negro era uma prece. Na contrapartida da escravidão, os negros do sul entregam aos Estados Unidos as raízes de sua própria música. Ironia ou sutileza?

Na primavera norte-americana de 1990 o fotógrafo Walter Carvalho desceu o Rio Mississipi registrando lugares e pessoas do blues, de Illinois à Louisiana. O trabalho está registrado na edição de março de 1992 da revista Íris Foto e fez parte de um projeto que incluiu o vídeo "Blues", sob a direção de João Moreira Salles, e o álbum de mesmo nome lançado pela Som Livre em 1995. O subtítulo do CD “Blues” é: “pain created to heal pain”, “dor feita para curar a dor” (da escravidão, da pobreza, do amor frustrado). Nas fotografias de Carvalho, no filme de Salles e no álbum, os personagens não são os grandes nomes do blues, mas mestres quase anônimos encontrados no caminho do “grande rio”, gente que parece trazer a alma na voz. Muddy Waters é um dos padrinhos do rock, mas há muitos outros que nunca chegaram ao chamado Grande Público: Dave Honeyboy Edwards, Eugene Powell, James Son Thomas e Big Jack Johnson são alguns.

Quando vejo por aí algum garotão entoando o lamento do blues em uma harmônica, penso que a celebração não ira acabar e que as águas do Mississipi ainda vão rolar por muito tempo, lá nos Estados Unidos, aqui no Brasil ou em qualquer outro lugar onde a dor tenha que ser curada, embora a dor da vida não tenha cura.
Bluesmen sabem disso.


* Versão ligeiramente modificada de artigo publicado originalmente no jornal O Caxiense, Caxias do Sul, p. 24 - 25, 11 dez. 2009.

9 de jan. de 2017

Pequeno vocabulário selvagem I

Jean Jacques Henner - "Solitude"

por Macuri Peteffi e Rafael José dos Santos

I.

Desilusão. 

O Houaiss Eletrônico diz que é um “substantivo masculino” (?), refere-se ao “ato ou efeito de desiludir (-se)”. Vem junto no verbete: “perda da esperança e descrença”, “sentimento de tristeza, frustração; desapontamento, decepção”. Só que, como antônimos, o dicionário registra “encantamento, ilusão”. Desiludir-se se refere, portanto, ao desencantar-se, a abandonar ilusões. Claro que a perda de uma ilusão e de um encanto traz sofrimento, depois do sofrimento a exigência de luto, e depois? Depois não vem um choque de realidade, pois o real é inacessível e, se fosse acessível, seria insuportável. O contato com o real é rápido como faísca, embora forte o suficiente para atirar o desiludido em uma espécie de abismo momentâneo. Depois? Depois vem a desordem provocada pela desorganização daquilo que se imaginava (vejam bem, imaginava) certeza. Desilusão, o afeto que não se atrasa. O desamor do amor, o desfecho trágico do belo. Do desiludir enganchado na ilusão de que podemos ter aquilo que é obra do desejo. A alma do desiludido, pulsará de que jeito? Desilude aquele que lembra, o que quer esquecer... Sozinhos não estamos.
A desilusão é a solidão, do afeto.

II.
Insuportável.
A verdade do desejo é insuportável, daí os artifícios do não querer assumir o saber. Sinto raiva do outro que em minha fantasia deseja o que eu (penso que seja meu) desejo, mas devo negar-lhe este gozo que me é negado. Elejo objetos desejantes para os quais forneço minhas fantasias, são minhas criaturas, não há relação “real” entre eles e eu. Contraditoriamente, é nessa relação que busco preencher o vazio daquilo que não cessa de me chamar, pedir, solicitar. Do sonar desejo, coisa que retoma o sujeito da infância. Do trauma ao gozo, há apenas um passo. O biológico do ser que se perde no labirinto vertiginoso de suas pulsões. Cavalga... o teu desejo cavalga. A passos firmes inscreve seus caminhos e lhe mostra os seus. Força da pura perda, no Outro posso me reconhecer. A estética do desejo desenha o que queres, mas: che vuoi?
O que queres comigo, desejo!? Meu gozo, teu gozo, gozo dos gerais... Do desejo freudiano é o que temos que saber. Desejos insatisfeitos são as forças pulsionais da imaginação poética.
O que queres, Outro?





Macuri Peteffi*
&
Rafael José dos Santos
















I.


Desilusão.

 
O Houaiss Eletrônico diz que é um “substantivo masculino” (?), refere-se ao “ato ou efeito de desiludir (-se)”. Vem junto no verbete: “perda da esperança e descrença”, “sentimento de tristeza, frustração; desapontamento, decepção”. Só que, como antônimos, o dicionário registra “encantamento, ilusão”. Desiludir-se se refere, portanto, ao desencantar-se, a abandonar ilusões. Claro que a perda de uma ilusão e de um encanto traz sofrimento, depois do sofrimento a exigência de luto, e depois? Depois não vem um choque de realidade, pois o real é inacessível e, se fosse acessível, seria insuportável. O contato com o real é rápido como faísca, embora forte o suficiente para atirar o desiludido em uma espécie de abismo momentâneo. Depois? Depois vem a desordem provocada pela desorganização daquilo que se imaginava (vejam bem, imaginava) certeza, que situava o desiludido em uma espécie de ponto definido por coordenadas cartesianas (x, y, z).
Não são as coordenadas que se dissolvem, são os eixos que não existem.
Desilusão, angústia.
O desiludido atribui a origem de seu sofrimento a um outro, individual ou coletivo, (pessoa, pessoas, partidos políticos, religiões) que ele mesmo elegeu como objeto do amor ou da esperança ou da utopia. O sofredor não consegue assumir sua responsabilidade enquanto não se der conta de que o outro “real” nada tem a ver com sua desilusão, pois a iillusio nasce de um Outro que é parte da própria estrutura do sujeito. Assumir a responsabilidade significa, portanto, entrar em contato com sua verdade, uma verdade que é sabida (é um saber), notem, não se confunde com conhecimento. É um saber que não se sabe, que se insinua em pequenas brechas, incidentes, pressentimentos que podem nascer de indícios que vêm efetivamente do exterior, mas que o sujeito nega transformar em saber

Desilusão, o afeto que não se atrasa. O desamor do amor, o desfecho trágico do belo. Do desiludir enganchado na ilusão de que podemos ter aquilo que é obra do desejo. A alma do desiludido, pulsará de que jeito? Desilude aquele que lembra, o que quer esquecer... Sozinhos não estamos. 

A desilusão é a solidão, do afeto.


II. 


Insuportável. 


A verdade do desejo é insuportável, daí os artifícios do não querer assumir o saber. Sinto raiva do outro que em minha fantasia deseja o que eu (penso que seja meu) desejo, mas devo negar-lhe este gozo que me é negado. Elejo objetos desejantes para os quais forneço minhas fantasias, são minhas criaturas, não há relação “real” entre eles e eu. Contraditoriamente, é nessa relação que busco preencher o vazio daquilo que não cessa de me chamar, pedir, solicitar. Do sonar desejo, coisa que retoma o sujeito da infância. Do trauma ao gozo, há apenas um passo. O biológico do ser que se perde no labirinto vertiginoso de suas pulsões. Cavalga... o teu desejo cavalga. A passos firmes inscreve seus caminhos e lhe mostra os seus. Força da pura perda, no Outro posso me reconhecer. A estética do desejo desenha o que queres, mas: che vuoi? O que queres comigo, desejo!? Meu gozo, teu gozo, gozo dos gerais... Do desejo freudiano é o que temos que saber. Desejos insatisfeitos são as forças pulsionais da imaginação poética.


O que queres, Outro?






(*) Macuri Peteffi, graduando em Psicologia pela UCS, Bolsista CNPq. Desde Freud até Lacan sou um leitor da psicanálise, pelo afã do inconsciente.

8 de out. de 2016

“Saindo pela esquerda”: a mediocridade interna hegemônica no PT vai finalizar o desmanche desencadeado pela direita neoconservadora.

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Rafael José dos Santos
Caxias do Sul, RS.

Como aconteceu com muitos, a conjuntura que se acirrou nos últimos tempos levou-me de volta à militância política. Claro, retornei à militância no partido em que me filiei pela primeira vez em 1980, ainda na cidade de Campinas*. Hoje, com as reflexões abaixo, despeço-me dele depois de um período curto de retorno, mas suficiente para compreender que ele deixa de ser a alternativa para meu horizonte do “utópico possível”.

A candidatura majoritária do PT não passou para o segundo turno das eleições municipais em Caxias do Sul, RS, ficando em terceiro lugar. Entre os motivos, saltou aos olhos o mesmo sentimento antipetista que vinha tomando corpo na sociedade brasileira em geral desde pelo menos 2014 e que forneceu o substrato ideológico para o golpe branco cujo marco inicial foi a aprovação da admissibilidade do impeachment da presidenta Dilma Rousseff no fatídico 17 de Abril. A derrota do PT nas urnas foi um fenômeno de abrangência nacional, salvo poucas exceções.  

O sentimento antipetista teve como maior veículo os monopólios midiáticos e o golpe foi levado a cabo pelas mãos de políticos do PMDB, de todo o PSDB e da bancada BBB (Boi, Bíblia e Bala), que representam os interesses do ator político maior, o capital financeiro global. O antipetismo é um dos ingredientes de uma espécie de neoconservadorismo que acompanha a reação do capital e unifica sentimentos autoritários, homofóbicos, xenófobos, racistas, antifeministas, entre outros, desdobrando-se em movimentos como a “Escola sem partido”, ataque frontal às tentativas de fazer da educação um instrumento de reflexão crítica.

O golpe foi uma reação aos avanços promovidos pelos dois primeiros governos Lula e, em particular, pelo primeiro governo Dilma.  O que chama a atenção nas opiniões favoráveis ao retrocesso é que elas valorizam sobremaneira os avanços sociais e culturais, enquanto uma parcela da esquerda avaliava tais avanços como tímidos e exigia mais. Muito à esquerda para os interesses do capital e para as concepções de mundo neoconservadoras, ainda à direita ou ao centro para parte da esquerda. De qualquer forma foram avanços, como comprova a urgência do governo golpista em desmontá-los a “toque de caixa” implementando a agenda do capital.

Do ponto de vista das críticas à esquerda, muitas eram oriundas do próprio interior do PT, outras vinham de partidos como o PSOL. Um dos temas era a tese da “governabilidade”, que delineava políticas de aliança e obrigava a concessões que atrasavam o ritmo das mudanças necessárias ou até mesmo as impedia. O assunto não é novo e relaciona-se com uma problemática já clássica na história da esquerda: a da atuação no interior do Estado e do jogo político dentro das regras da democracia liberal. A política da “governabilidade” era um dos sintomas do gradual afastamento do PT em relação às suas origens e aos seus princípios, sua progressiva verticalização, o distanciamento relativo dos movimentos sociais, enfim, da base e das tendências que serviriam como contraponto crítico à sua atuação no governo. Não se tratava e não se trata apenas de críticas ao governo, mas também e principalmente aos rumos do partido, tendo como representante a corrente “Mensagem ao Partido”, que aglutina algumas tendências da esquerda do PT em oposição ao chamado “Campo Majoritário”.

O golpe acirrou o debate interno, uma vez que muitos compreenderam que, não obstante ele ter sido levado a cabo pelos representantes do Capital (tanto no campo político como no cultural), ele também foi possível pela fragilidade gerada pelos rumos do PT. Logo após o primeiro turno das eleições municipais, a Democracia Socialista (DS), tendência que integra a “Mensagem ao Partido”, lançou a nota “A derrota de 2 de outubro e as perspectivas da esquerda”. Nela, a DS faz uma avaliação lúcida da conjuntura política e finaliza lançando o desafio de mudanças urgentes no PT:

A responsabilidade central dessa trajetória de derrotas é, obviamente, do nosso partido, da sua direção nacional.  Porque era quem poderia corrigir rumos e optou por se adaptar às circunstâncias, ao invés de tentar mudá-las. Essa inércia chegou até o domingo, 2, e tocou o fundo do poço. Não pode mais continuar.
Nas mobilizações sociais e contra o golpe de Estado em 2016 e nos resultados eleitorais registramos que continua a existir energia popular e de esquerda.  Fomos derrotados, mas podemos reconstruir um projeto capaz de enfrentar a direita e disputar novamente corações e mentes.
A resposta urgente e necessária é mudar o PT, construir um novo programa sob a perspectiva do socialismo democrático, definir novos métodos de organização com base em uma estratégia que inclui a disputa eleitoral e volta a combina-la com a disputa social e cultural, estabelecer claramente o compromisso com a construção da unidade da esquerda e eleger uma nova direção. Essas tarefas são urgentes e vamos lutar para realiza-las já, através de um Congresso emergencial.
Por isso, Muda PT Já!

No dia 4 de Outubro, a vereadora Ana Corso (PT/Caxias do Sul) posta em sua página no Facebook uma posição que gerou polêmica, pois ao se posicionar contra os candidatos da situação Néspolo (PDT, prefeito) e Antonio Feldman (PMDB, vice), acabou por chamar votos para Daniel Guerra do PRB:



Indignado lendo os comentários que defendiam o voto no candidato do PRB golpista, postei minha opinião:

Provincianismo casado com política local concebida como briga entre "turmas". Nespolo é uma face, Guerra é a outra face. Alguém lembra de quem são as faces?
Não aprendemos nada. Vamos seguir tentando desastrosamente dar respostas pontuais sem nos colocar a questão de fundo: “quais serão as correções de rumo?”. Olhar o Brasil, o mundo (não o mundinho) e nos perguntarmos sobre os rumos da construção do socialismo e da democracia. “Por favor, pensar grande!”.

Aos que defendiam o voto nulo nas postagens, a vereadora e outros petistas respondiam que votar nulo era votar “no Néspolo”, argumento bastante recorrente nos debates de Internet. A única interpretação possível é que a vereadora conclamava o voto no PRB.

 Não satisfeito, redigi um texto chamado “A Síndrome do Raciocínio Eleitoral”: Esboço para contribuição ao debate inevitável e que coloquei em circulação em alguns grupos fechados. Tomo a liberdade do autoplágio e aproveito aqui alguns trechos dele. Escrevi que em Caxias do Sul havia se configurado uma disputa entre, de um lado, uma coligação de muitos partidos que têm PDT e PMDB à frente, juntos de mãos dadas; de outro, o PRB representado por Daniel Guerra, uma candidatura de traços conservadores, mais acentuados, ou pelo menos mais visivelmente conservadora que seus adversários. O PDT que encabeça a primeira chapa com o candidato Néspolo está longe de ser o PDT brizolista. Antes, é um PDT fisiológico que se apresenta pela segunda vez como continuidade de uma administração do PMDB e vincula-se ao atual Governa do Estado.

O comentário mais representativo que li: “Fora nespolo agora é guerra” (sic!). Frente a algumas objeções e defesas de voto nulo ou branco, a vereadora do PT afirmou: “Quem fez a campanha mais imunda contra nós foi o Néspolo, o Guerra nem nos agrediu, foi respeitoso”. Argumento fraco, ele demonstra que a vereadora caiu na armadilha da estratégia de campanha do candidato do PRB, com a imagem de bom moço.

Dois pontos principais chamam a atenção. O primeiro é o fato da vereadora do PT não ter aguardado o debate interno para se posicionar. O segundo ponto é o mais sintomático: o “debate” no Facebook assemelhava-se às discussões sobre eleições em barbearias de cidades muito pequenas, inclusive com declarações que não escondiam um preconceito social que, mesmo voltado contra a figura de um político fisiológico de direita, persiste como índice de preconceito: “Esse bota suja pra não falar outra coisa. Pior prefeito que Caxias do sul já teve, perde até pro Vitório Três. Encheu de CCs um bando de incompetentes...”. (Grifo meu). Ou ainda: “O Prefeito Bombachudo nos chamou de ladrões. Cai fora Gaudério vai procurar tua turma”.

Expressões como “bota suja” (pejorativa) e “bombachudo” remetem à figura do gaúcho que trabalha no campo e, no contexto de Caxias do Sul, que não possui ascendência “italiana”, como é o caso do atual prefeito Alceu Barbosa Velho. Fisiológico sim, mau político sim, fez campanha “suja” sim, mas afirmações discriminatórias são graves, porque denotam a existência de um preconceito que certamente não surgiu apenas em função do candidato e das eleições. Mais grave ainda quando vêm de militantes, filiados ou simpatizantes do PT.

Antes que dissessem que eu defendia o atual prefeito e seu candidato, afirmei que o outro é representante de um dos partidos que votou em bloco a favor da admissibilidade do processo de impeachment, Daniel Guerra. Este é o candidato indicado pela vereadora Ana Corso do PT caxiense para o segundo turno (recordando a fala da vereadora: “votar nulo é votar em Néspolo”).

O que notei na maior parte das postagens foi a concepção do “jogo do jogo” político eleitoral, no qual o discurso de (eu disse de, não dos) petistas não alcançava um universo maior do que as disputas locais e não pensava a política tendo como pano de fundo um projeto maior. É como se a luta de classes se restringisse à praça central de Caxias do Sul, a praça Dante.

O fato de parte da militância petista ter se deixado levar pela armadilha do “quem é o mal menor” (variante do “voto útil”) aponta para algo mais grave ainda, mas que já foi diagnosticado antes e vem sendo objeto de muito debate, compondo os elementos da atual crise no que diz respeito à esquerda (no que diz respeito à direita, já sabemos). Trata-se da “síndrome do raciocínio eleitoral”, muito grave em uma esquerda que se pretenda socialista. Consiste na incapacidade de ampliar o horizonte das lutas para além do campo eleitoral e dos limites da democracia liberal (para além, não para fora dela). Essa incapacidade subverte o raciocínio: em vez de analisar conjunturas amplas e, a partir dai definir as estratégias e táticas, olha-se para o quadro eleitoral imediato e personaliza-se o debate (“fulano isso, sicrano aquilo”).

Fica obscurecido pela ideologia o fato de a participação na luta política eleitoral ser parte das estratégias e não um fim em si mesmo.  O problema, quando vem da militância de base, aponta para a ausência de formação política sólida, mas, sobretudo para a incapacidade de romper com o obscurecimento ideológico.
A “síndrome do raciocínio eleitoral” é um dos subprodutos das opções feitas por parte das lideranças petistas nos últimos anos, que levaram ao afastamento já tão alardeado dos movimentos sociais e, sobretudo, da ausência de reflexão praxiológica sobre os caminhos para o socialismo.

Nada, contudo, está tão ruim que não possa piorar. No dia 6 de Outubro o Diretório Municipal de Caxias do Sul realizou reunião ampliada, aberta, da qual não pude participar porque estava trabalhando. Da reunião saiu a nota que reproduzo na íntegra abaixo:

RESOLUÇÃO DO PT-CAXIAS DO SUL SOBRE AS ELEIÇÕES 2016

Enfrentamos a eleição mais difícil da nossa história, em função da ofensiva nacional contra o PT, patrocinada pelas classes dominantes, em especial pela mídia oligopolizada, criminalizando somente e todo o PT pela corrupção. Além disso, apesar de fora do governo desde maio, culpam o PT pela crise econômica, que se aprofunda pelo ajuste neoliberal do governo Temer. Tais fatos reduziram a votação do PT em todo o país.
Mesmo com a brutal ofensiva anti-petista chegamos a 25,27% dos votos. Agradecemos aos eleitores que confiaram em nossos candidatos à prefeitura e à câmara de vereadores. Agradecemos às pessoas que apoiaram nossas atividades de campanha eleitoral, que contaram exclusivamente com militantes voluntários. Agradecemos aos que contribuíram financeiramente para a campanha.
Embora as visíveis diferenças entre os modestos gastos da nossa campanha, quando comparados à cara estrutura da coligação governista, julgamos positiva a nova lei eleitoral, que vedou o financiamento empresarial e os instrumentos de propaganda eleitoral mais dispendiosos, dificultando o abuso do poder econômico, embora não eliminando-o totalmente.
O fato de não dirigirmos a prefeitura nos últimos anos nunca nos impediu de trabalhar em favor do povo da nossa cidade. Através dos nossos mandatos no legislativo municipal, estadual e federal sempre defendemos os interesses da nossa população, em especial dos que mais precisam de políticas públicas. Nossa atuação no governo federal garantiu importantes obras no município, permitiu o sonho da casa própria para milhares de pessoas através do minha casa minha vida, o acesso à universidade por meio do Prouni e do FIES para milhares de jovens, a garantia de renda para milhares de famílias pobres graças ao Bolsa Família e financiamentos subsidiados para a indústria e a agricultura gerando renda e empregos na cidade. Reafirmamos nosso compromisso em trabalhar em favor do povo da nossa cidade através dos nossos mandatos no legislativo municipal, estadual e federal.
A Resolução da Direção Nacional do PT orienta nossa militância a apoiar as candidaturas do PSOL, do PCdoB, da Rede e do PDT, onde há segundo turno. Mas sugere aos diretórios municipais que avaliem localmente a quem devemos negar apoio e voto.
Neste sentido, nossa primeira afirmação é que nenhum dos dois projetos políticos que foram ao segundo turno são de nossa responsabilidade e não representam nossas posições.
Nespolo é do PDT, mas as opções políticas deste partido em Caxias e o fato de dirigirem a administração municipal nos levam a negar-lhes nosso apoio e nosso voto.
Os eleitores de Caxias do Sul, no primeiro turno, votaram majoritariamente contra a atual administração municipal, um conluio de 21 partidos que inchou a máquina pública com CCs, para cooptar siglas partidárias que lhes dessem maior tempo na propaganda eleitoral em rádio e TV, visando sua perpetuação no poder.
As oposições somaram 56,4% dos votos válidos contra 43,5% da situação. Considerando votos brancos, nulos e abstenções, Nespolo foi rejeitado por 65,3% dos eleitores.
Esta aspiração por mudança é legítima, pois o retrocesso nos serviços de saúde, a falta de vagas na educação infantil, a burocracia no acesso a serviços públicos, o abandono dos loteamentos e bairros mais pobres, a ausência de efetiva participação popular, entre outras mazelas, compõe a triste realidade depois de 12 anos de continuidade do atual grupo político à frente da prefeitura.
Esta realidade também é fruto do governo Sartori, que não tem resposta para o caos da segurança e demais serviços públicos, além de não pagar os salários do funcionalismo. A coligação de Nespolo representa não só o governo Sartori, mas também as principais forças que dão sustentação ao ilegítimo governo Temer e sua agenda de ataque aos direitos dos trabalhadores. A direção do PDT de Caxias e o próprio Nespolo apoiaram o golpe que levou Temer ao poder sem o voto popular.
A campanha de Nespolo adquiriu contornos fascistas ao propor que os eleitores votassem pelo fim do PT, criminalizando somente e todos os petistas pela corrupção. Uma hipocrisia, vinda de um bloco de partidos que tem o maior número de investigados ou condenados pela operação lava jato, inclusive Eduardo Cunha, do PMDB, sigla do seu candidato a vice-prefeito. E o PDT, recentemente, teve o deputado Bassegio cassado pela Assembleia Legislativa por amealhar parcela dos salários dos seus assessores.
Apesar das nossas divergências com a candidatura de Daniel Guerra, reconhecemos sua candidatura como de oposição ao atual governo municipal. Seu partido também apoiou o golpe e consideramos um grave equívoco sua pregação contra os partidos e contra a política. Ele se beneficiou da pregação antipetista de parte da mídia e da campanha de Nespolo, recebendo votos de eleitores que, assim como nós, desejavam mudança na prefeitura.
Não negociaremos nosso apoio nem aceitaremos convite para composições de governo.
Defendemos a necessidade de mudar a administração municipal, mas não daremos apoio formal à candidatura de Daniel Guerra. Compreendemos as manifestações de eleitores que votaram na nossa candidatura no primeiro turno e agora votarão em Daniel Guerra para impedir a vitória do continuísmo.
Desde já afirmamos que fiscalizaremos os atos da futura administração de Caxias do Sul e cobraremos o atendimento das justas demandas da população, além da defesa que faremos dos direitos dos trabalhadores frente aos ataques dos governos Temer e Sartori. (Grifo meu).

Contestei e protestei contra a Resolução afirmando que os últimos parágrafos (em itálico) eram de apoio explícito ao candidato do PRB, e que do ponto de vista textual tratava-se de uma afronta à inteligência. O Deputado Federal Pepe Vargas respondeu assim ao meu posicionamento:

Não estamos apoiando o Guerra. A nota é clara. O parágrafo é claríssimo, diz que o PRB apoiou o golpe, diz que não concordamos com a pregação antipolítica e antipartido que eles fazem, mas diz que compreendemos os eleitores que votaram em nós e agora dizem que vão votar no Guerra porque querem derrotar o continuísmo de 12 anos na prefeitura. [... ] Quanto aos petistas a nota é mais do que clara, diz que não apoiamos nenhum dos dois, que nenhum dos dois nos representam, diz textualmente: não apoiaremos Daniel Guerra. Leia de novo e reflita bem antes de fazer um ataque desmedido. A reunião contou com quase duas centenas de pessoas, muito além do diretório, que apoiaram a nota é participaram da discussão.

 Retomo um trecho do texto da resolução: “Defendemos a necessidade de mudar a administração municipal, mas não daremos apoio formal à candidatura de Daniel Guerra”. (negrito meu). A nota defende a necessidade de mudança, posiciona-se contra o “continuísmo”, associa Daniel Guerra à aspiração dos eleitores de “derrotar o continuísmo”, mas em uma tentativa de drible de linguagem nega o apoio formal. Trata-se de uma “nota clara” e de um “parágrafo claríssimo”?

No dia seguinte, mais uma evidência. A vereadora Ana Corso publica em sua página no Facebook: “Aprovada por unanimidade a Resolução sobre posição do PT no segundo turno Fotos da Reunião Ampliada do PT/Caxias, resumindo nossa posição: NÃO AO NÉSPOLO!”.



A chamada não menciona o não apoio “formal” ao candidato do PRB. Olhando no conjunto, desde as postagens após o primeiro turno, passando pelo texto da Resolução e chegando ao post acima penso ser impossível outra interpretação que não seja o apoio tácito à candidatura golpista. E o Deputado Pepe Vargas sabe disso em seu íntimo. O que surpreende, além do erro político, é o modo como descaradamente subestima a capacidade de compreensão de muitos. O texto escrito é uma coisa, o discurso que emana dele é outra. O Deputado subestimou a capacidade de leitura, em sentido amplo, interpretativo do discurso, de que algumas pessoas são capazes.

Agora, retornando à nota da Democracia Socialista e a conclamação às mudanças no PT. Pepe Vargas é uma das figuras de ponta da DS. Fica então a pergunta: como alguém preso ao horizonte das disputas personalizadas locais, como alguém que manipula um texto jogando com a ambiguidade, pode ser uma das pessoas a liderar um movimento de mudança radical dentro do partido? Suas posturas coerentes atuando como Deputado Federal, inclusive se negando a votar em Rodrigo Maia no segundo turno das eleições à Presidência da Câmara, fizeram com que aumentasse minha admiração por ele, admiração que caiu por terra ontem, assim como caiu por terra a esperança de transformações e na construção de um novo PT.

De minha parte, nem Néspolo nem Guerra, nem Guerra, nem Néspolo. Mas a questão vai para além dos nomes, atinge o que eles significam e, sobretudo, o que significa a posição do PT caxiense em relação a isso: sintoma de um mal que, infelizmente, pode estar atingindo o partido em âmbitos maiores e inviabilizando sua existência.

Não bastasse  as investidas da direita, mão amiga do capital, há a corrosão de princípios que compromete um sonho. Muitos têm escrito sobre os rumos do PT e as teses têm algo em comum: a urgência em reinventar o partido. Eu diria que é a luta que deve ser reinventada e o menor problema do PT no momento é discutir se vota no lado A ou no lado B da direita neoconservadora. Minha sugestão é o retorno (ou a ida, alguns nunca foram) aos textos clássicos e a visita aos contemporâneos para que se restabeleça a dialogia entre prática e teoria para construir o socialismo, a práxis, isso que em tese tornaria o PT diferente de outros partidos. Como não vislumbro tal possibilidade, retiro-me à esquerda lembrando melancolicamente de minha ficha de filiação original assinada em Campinas em 1980.


           


           




* Antes que algum burocrata do PT caxiense diga o contrário, permaneci filiado entre 1980 ou 1981 (a ficha está em alguma caixa), até afastar-me no início dos anos 90 por cerca de dois anos, quando fui para o PCdoB. Retornei ao partido em Laguna, SC, por volta de 2002, a memória falha. Transferi minha filiação para Caxias do Sul, mas tive que refazê-la este ano por conta de um recadastramento que perdi. Tenho ex-companheiros no Facebook que podem atestar minha história de militância.

Lênin sim!

(Rafa) Tatiana Dias e Rafael Moro Martins, autores do artigo " ELOGIAR DITADORES É A MELHOR MANEIRA DE A ESQUERDA CONTINUAR ...